Caso

Terça feira, 13 de março de 2007.

Era três horas da tarde e recebo uma ligação de urna mulher que me pareceu bem equilibrada, mas profundamente triste. Estava decepcionada por causa de um amor que a havia enganado. Iniciou dizendo que já havia superado tudo, que não sentia mais nada pela pessoa, mas queria me contar tudo para ouvir o que eu pensava sobre o ocorrido.

Ela disse ter 38 anos e morar numa casa de uma satélite de Brasília, há mais ou menos oito anos. Mora com seu filho de dezoito anos.

Após um ano que ali morava, mudou-se para lá uma família composta por um homem de uns 50 anos e sua mulher, mais nova que ele, talvez de uns trinta anos e dois filhos pequenos. Os anos se passaram e ela sempre notou que o homem a olhava com olhos diferentes de um vizinho. Era solicito, lhe levava doces, bombons, e outras coisas somente para puxar conversa com ela. Ano passado, em meados de fevereiro, ele lhe deu uma carona e propôs estreitar o relacionamento para um motel. Ela não lhe deu resposta imediata, mas devido a insistência dele, e sentir-se carente, logo ela cedeu e tiveram o primeiro encontro. Logo depois tiveram um segundo encontro no mesmo local.

Ela me confidenciou ter vários problemas de saúde. A única gravidez que teve foi de alto risco e de difícil concepção e, quando seu filho nasceu, o médico lhe avisou que ela não poderia mais engravidar. Ou melhor, lhe disse que para engravidar teria que fazer longo tratamento e que as chances eram de apenas 5% de conceber e vingar uma criança.

O problema foi que na terceira saída dela com o tal homem, derrubou-se o prognóstico médico e ela ficou grávida. Esperou o tempo necessário, confirmou com exames e informou a ele sobre a gravidez indesejada. Ele mudou imediatamente sua forma de tratá-la. Começou a dizer-lhe que tirasse a criança. Disse-lhe que pagava o aborto Ela não quis e disse que cuidaria sozinha. No quinto mês, após a primeira ecografia, foi constatado que eram gêmeos e meninos. Ela participou ao ex-namorado, mas mesmo assim ele não quis saber. Já no final da gravidez ele começou a lhe dizer que os filhos não eram dele, que queria fazer exames de DNA. Ela disse que tinha a certeza que os filhos eram dele e que submeteria ao exame após o nascimento, sentiu a barriga endurecer. Na seqüência, passou mal e se dirigiu ao hospital, onde perdeu as crianças. Participou ao homem a perda dos filhos e disse que iria tratar do enterro, mas precisava registrá-los com o nome do pai. Mais uma vez ele deixou-a só e ela fez tudo sozinha e os meninos foram enterrados sem o nome do pai.

Passou-se mais ou menos uns dois meses e certo dia a esposa do pai dos natimortos, veio a sua casa e lhe questionou sobre a paternidade. Ela disse que eram do marido dela. A visitante afirmou então aos gritos que ele havia negado ser o pai e que ela, como esposa dele, acreditava no marido. A moça então expulsou-a da residência. A partir dai, permanecia em casa com tudo fechado, janelas e portas. Chegava de carro e se enclausurava. Notava que ele agia como se nada houvesse acontecido. Nem lhe cumprimentava mais. Mas abriu-se comigo e disse que sabia muito bem que ele nunca a havia amado, que queria com ela apenas um caso, por ser ela mais jovem que ele. A gravidez havia estragado os planos dele. Descobrira que era do perfil dele sair com mulheres mais jovens e que já havia se casado quatro vezes repetindo a mesma história.

Passados mais algumas semanas, soube que ele programa sair dali, mudar-se para uma casa construída em outra cidade satélite. Finalmente ficaria livre dele, pois não o veria mais.

Perguntou-me então se eu acreditava em justiça divina. Disse-lhe que tal justiça, não é dos homens e não nos compete analisar sobre sua ocorrência. Disse-lhe também que a intensidade da justiça divina não nos é compreendida, e que para nosso conforto nem ficamos sabendo quando e como ela ocorre.

Finalizei dizendo que o fato dele sair da rua iria libertá-la, já que ele havia demonstrado tamanha frieza quando soube de sua gravidez. Aconselhei-a seguir sua vida, e que pensasse no filho de dezoito anos, que certamente estava precisando dela naquele momento. Arrisquei falar a ela que ele era um infeliz e que por mais que fingisse estar bem, ninguém sabe o íntimo dos outros.

Fiz uma oração retirada de um livro da mesa do voluntário e recebi dela um profundo suspiro e um agradecimento sincero e emocionado. Disse que o que eu havia lido se encaixava certinho para fechar o assunto.

Quando se despediu, após uma hora e meia de conversa, sentia-se mais confiante.

Um Plantonista.